Confira abaixo a história emocionante de Eliene Silva, sobrevivente de violência doméstica. Ideia do projeto é ajudar mulheres a se defenderem de maneira eficaz
Simulação de Defesa Pessoal voltada para mulheres. Foto/Reprodução: Iago Jenipapo
"Eu acordei de madrugada com ele em cima de mim com um facão no meu pescoço dizendo que só não me matava porque não queria: - É só para te mostrar que eu ainda penso em você apesar de tudo que você me faz. Eu tenho a oportunidade de te matar, mas não mato'. Outra vez, foi agressão física. A gente entrou em luta corporal e ele bateu várias vezes a minha cabeça contra a parede e o chão que eu cheguei a desmaiar. Quando eu acordei, eu estava deitada no banheiro com ele jogando água na minha cabeça tentando me acordar porque achou que eu estava morta."
Esses são alguns dos tristes episódios que Maria Eliene Gomes da Silva (39), moradora da localidade do Fagundes e vítima de violência doméstica, foi submetida enquanto esteve casada. O relacionamento tóxico, abusivo e violento, durou 12 anos. Ela conta que tudo começou com agressão verbal, depois evoluiu para agressão psicológica e, por fim, agressão física. "Não demorou muito para chegar nesse ponto. Eu vivi cárcere privado, sofri várias tentativas de assassinato... Primeiro, ele me isolou da minha rede de apoio. Minha mãe morava a dois quilômetros da minha casa e eu passei mais de ano sem andar lá porque ele fazia chantagem emocional [...] Ele me afastou dos meus amigos e de todas as pessoas que gostavam de mim e eu fiquei aprisionada naquela bolha dentro da minha mente."
Tudo isso acontecia bem diante dos olhos dos dois filhos pequenos de Eliene. Ela explica que, apesar da sua independência financeira, a dependência emocional a impedia de sair daquela situação. "Existem N dependências que, muitas vezes, a mulher cria na cabeça dela, coisas que nem existem. Ele dizia muito: - Se tu se separar de mim, tu vai morrer. Como é que tu vai viver? Tu nem tem onde morar! Vai deixar teus filhos crescerem traumatizados sem pai?' Mas eu não entendia que mais traumatizados os meus filhos ficavam de ver todas aquelas cenas horrorosas".
A virada de chave na vida de Eliene aconteceu quando o filho, que na época tinha apenas 9 anos, disse que queria ir embora morar com a avó porque já não aguentava presenciar aquela situação. "Foi quando a minha ficha caiu e eu percebi que não tinha trauma pior do que aquele. Um dia eu esperei ele sair para trabalhar e fugi de casa com a minha bebê que tinha 10 meses. Peguei ela do jeito que estava, só de fralda e fui. Meu filho já estava com a minha mãe e contou tudo porque até então ninguém sabia."
Mas a história de Eliene ainda não termina aí. "Ele continuou a me perseguir nos lugares, no trabalho, quebrava minhas coisas e depois de quase dois anos separados, ele chegou a me esperar em algum lugar mais deserto na rua (emboscada) para me bater. Foi assim até eu tomar a decisão de denunciar porque eu ficava na minha cabeça: o pai dos meus filhos vai ser preso' ou meus filhos vão ficar com raiva de mim', mas chegou num ponto que eu, realmente, tive que denunciar porque se eu não fizesse, ele me mataria na rua. Não morri em casa, mas morreria na rua."
Eliene poderia não estar aqui hoje para contar a sua história, mas felizmente, e apesar dos traumas e das dores que ela e os filhos carregam após esses 6 anos de separação, ela não virou estatística. De acordo com dados da Superintendência de Pesquisa e Estratégia (Supesp), disponibilizados pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) em julho deste ano, 24 mulheres foram vítimas de feminicídio no Ceará no primeiro semestre, um aumento de 26,3% em comparação ao mesmo período do ano passado.
Fortaleza é a cidade com maior índice de crimes dentro desse contexto de violência doméstica, mas Aquiraz aparece em quarto lugar na lista. Um caso recente no município, que repercutiu a nível nacional, foi o da contadora Kaianne Bezerra Lima, morta a mando do próprio marido em uma simulação de latrocínio. O motivo da morte foi asfixia mecânica por esganadura. Kaianne que, provavelmente, não praticava defesa pessoal, não teve nenhuma chance de lutar pela sua vida.
Considerando que a maioria dessas mortes foi por arma branca ou golpe de esganadura, a Prefeitura de Aquiraz, por meio da Secretaria de Trabalho e Assistência Social (STAS) em parceria com a Secretaria de Segurança Pública, realizou, entre os dias 25, 27 e hoje (29), um Workshop de segurança pessoal voltado para todas as mulheres, especialmente, aquelas em situação de vulnerabilidade social.
A ação é parte do Agosto Lilás, uma campanha anual de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil. Durante o encontro, as participantes aprenderam técnicas de defesa pessoal, estratégias para identificar e evitar situações de risco, além de conhecer os canais de apoio e denúncias disponíveis.
O objetivo, segundo a secretária da STAS, Ana Vládia Ibiapina, é fortalecer a autonomia e a segurança dessas mulheres, permitindo que elas tenham alguma chance, ainda que mínima, de defesa. De acordo com ela, a desvantagem econômica é um fator de risco para o problema social da violência doméstica, por isso, mulheres em situação de vulnerabilidade social são mais suscetíveis aos crimes de aversão ao gênero, sexual e psicológico.
Para Eliene, a prática de defesa pessoal pode ser eficiente até mesmo para aquelas mulheres que sofrem dependência emocional. "Se eu tivesse alguma noção de defesa pessoal, apesar da pressão psicológica te travar nesse sentido, que era o que acontecia comigo, mas eu teria noção do que fazer para me livrar naquele momento, para me soltar, para fugir. Teria me ajudado bastante"
Com a rede de apoio de familiares, amigos e Município, Eliene conseguiu dar a volta por cima. Com muita luta, a jovem mãe recuperou a sua autoestima, sentimento chave para viver com confiança, força e autenticidade. E, com isso, surgiram novos desafios em sua vida pessoal e profissional: Hoje, como Conselheira Municipal de Aquiraz, ela luta para que sua história inspire e salve outras mulheres.
"Nós somos capazes, somos fortes, somos mulheres capazes de tirar forças de onde a gente nem sabe que tem. Da nossa fraqueza, a gente tira a nossa fortaleza. Eu acredito que muitas mulheres não denunciam por medo, mas a maioria delas, na maioria das vezes, não denunciam pela dependência emocional, pela agressão psicológica que ela recebe e vai construindo muros invisíveis que elas não conseguem transpassar. É algo que, realmente, só quem viveu consegue entender essa muralha que a gente acha que não consegue atravessar."
Para essas mulheres, Eliene deixa o recado. "Denunciem! Percam o medo! Essa questão de ter medo de viver sozinha, de não conseguir sobreviver são coisas que a gente mesmo cria, são prisões instaladas dentro da cabeça da gente, da nossa mente. Se a gente consegue sobreviver a esse turbilhão de coisas, a uma pessoa que nos humilha, que nos agride psicologicamente, fisicamente, financeiramente, então sozinha você vai estar em liberdade [...] Eu posso contar porque eu sobrevivi, mas muitas mulheres não tiveram essa oportunidade."
Se você é vítima de violência doméstica ou conhece alguém, denuncie pelo 180. A Central de Atendimento à Mulher está disponível diariamente, 24 horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados.